23.4.16

The last one

Tenho pensado em escrever aqui ao longo das últimas semanas, mas nunca sabia bem por onde começar. Poderia deixar o blog agoniar e morrer, com os posts a sucederem-se cada vez mais espaçados no tempo, mas com ele sempre a fazer parte de mim. Ou poderia, por outro lado, tirá-lo da agonia e dizer de uma vez por todas, que acabou.
Em vez de fazer uma retrospectiva dos 6 anos deste blog, vou fazer uma retrospectiva de 2016 so far (começando em 2015), até porque, tudo aquilo que eu pudesse dizer sobre o blog ou sobre as pessoas que conheci estará porventura documentado aqui ou nas caixas de comentários de blogs alheios.

2015 não foi um ano bom. Agridoce, no mínimo, e péssimo, no máximo e sem exagero. Passando pelas duas semanas em que estive no hospital, pelo mês de recuperação em casa, que, por achar que era o melhor, me fará demorar 4 anos para acabar a licenciatura, em vez dos habituais 3. Passado pelo "desgosto de amor" que tive durante o Verão, em que o rapazinho com quem andava (numa coisa de contornos muito indefinidos) decidiu que não podíamos continuar assim e que passaríamos a ser apenas amigos (isto porque tinha ido para a cama com outro gajo que, suponho, é o namorado actual, que eu já conheci, porque, sim, apesar de tudo, ficámos amigos).
Depois de tudo isto, chegamos ao dia 27 de Novembro: o dia em que a minha mãe foi internada no hospital. A minha mãe já tinha ficado internada durante uma semana, nesse mês, teve alta e uma semana depois teve que voltar ao hospital. Insuficiência renal e cardíaca. O coração estava a ser rejeitado pelo sistema imunitário e isso só viria a piorar com o passar do tempo, embora tivessem havido momentos em que a recuperação parecia possível e em que acreditava ela iria sair dali em breve.
2016 chegou. Duas semanas depois a minha mãe tem a primeira paragem cardiorespiratória, esteve 50 minutos com o coração parado, mas os médicos conseguiram salvá-la. Fiquei muito assustado e nessa altura, devido ao tremendo choque com a realidade, tive que abandonar todas as esperanças de ter a minha em casa novamente. Mas mesmo assim, havia sempre aquela esperança. O incidente passou, ela parecia estar a recuperar depressa. Até que já não estava.
A mera visão do tabuleiro do comer dava-lhe vómitos, não conseguia reter nada no estômago e isso afectava a medicação, que requeria não estar em jejum e que, por não comer, mas por ter forçosamente de os tomar (eram os imunossupressores e outros que tais, para evitar que o sistema imunitário rejeitasse o coração, que, de facto, não era dela), lhe iam dando cabo do estômago, num círculo vicioso mórbido.
Quarta-feira, 3 de Fevereiro. Fissura no intestino.
Quinta-feira, 4 de Fevereiro. Operação para fechar a fissura. É arriscado dado o seu estado frágil.
Sexta-feira, 5 de Fevereiro. Alguma família vai visitá-la. A minha mãe está entubada e mal consegue falar. Está muito fraca. A minha tia diz para irmos o mais cedo possível no Sábado para Lisboa (onde a minha mãe estava no hospital), contrariando os planos do meu pai, de sair de Castelo Branco apenas depois de almoço. Nem ele nem eu a queríamos ver naquele estado, mas a minha tia disse que ela não estava bem...
Sábado, 6 de Fevereiro, 1:30 a.m. Eu ainda estava acordado, ia começar a arrumar as mochila para o fim-de-semana. O telemóvel do meu pai toca. É um número de Lisboa. Atendo a medo, já com o coração acelerado e sei que tudo está perdido quando do outro lado a pessoa se identifica como u cardiologista do hospital onde estava a minha mãe. Ela não resistiu. Ela morreu.

Todo este tempo depois e tudo continua tão estranho, tão vazio.
As implicações são vastas: se viver até aos 80 anos, significa que dois terços da minha vida serão vividos sem a minha mãe. Ela nunca me verá licenciado, nunca me verá com uma vida feita...

Tem sido difícil lidar com isto, especialmente, porque eu e o meu pai não somos as pessoas mais próximas do mundo. E assim, vou-me sentindo abandonado e isolado, apesar de continuar a dar-me com todos os meus amigos, como antes.
E vou-me arrastando ao longo dos dias, tentando achar um propósito para continuar tudo isto, tentando achar vontade para ir a casa, para sentir que aquilo ainda é um lar, mesmo achando que nada daquilo faz sentido sem a minha mãe.

Mesmo assim, decido por um ponto final no blog. Tal como muitas outras coisas, já não faz sentido e já não me preenche.
Um obrigado a todos os que por aqui passaram e a todos os que, com os seus posts, me fizeram sorrir e me deram a conhecer coisas incríveis.
Haveremos de nos encontrar um dia, talvez.




4 comentários:

No Limite do Oceano disse...

Sinto muito, e não há palavras capazes de transmitirem o que senti e sinto quando li o teu post.

Porque esta caixa é para um comentário, o que poderia escrever fica num abraço, que mesmo sendo virtual, eu sei o que "ele me diz".

Força.

Anónimo disse...

Um abraço e os meus sentimentos. Quando comecei a escrever parecia-me que sabia o que queria dizer-te. Afinal escrevi, apaguei, reescrevi e o que fica é o desejo de que consigas superar estes momentos tão dolorosos. Acredita que o tempo te poderá ajudar.
Força.
P.

O Anfitrião de Lisboa disse...

Abraço.
Simples.

Homem, Homossexual e Pai disse...

sinto por sua mãe, sinto por seu sofrimento, sua tristeza! mesmo que pare de escrever nao suma, apareça de vez emquando! forte abraço e luz!