20.9.13

Praxe, Anti-Praxe, Praxe, Anti-Praxe

Nunca gostei de praxes.
Nunca gostei que me pintassem ou sujassem ou fizessem qualquer outra coisa degradante, simplesmente por ser novo naquele local de ensino. Desde o meu quinto ano que tenho a ideia formada de que as praxes não prestam e apenas servem para humilhar os recém-chegados para puro deleito dos "mais velhos".
No entanto, acedi a participar da praxe do meu curso da Universidade, para experimentar e também porque, estupidamente, pensei que seria uma forma de auto-exclusão se recusasse participar. Confesso que, desde que ouvi uma amiga minha perguntar-me se iria ser anti-praxe, como se fosse uma coisa horrível, depois de lhe ter dito que não gostava disso, achei que tinha de ser praxado, porque queria ser integrado e porque era assim que as coisas funcionavam. Mas não!

A praxe do meu curso é pacífica, comparada com o que tenho visto, em que ficam todos cagados - que é este o termo - e a feder, contudo, tem regras que eu não estou disposto a cumprir. Não aceito que, concordando em participar da praxe, tenha que ir todos os dias às 8 da manhã e ficar ali 3 horas, enquanto não tenho aulas e ficar outras tantas à tarde, até às 5, depois das aulas acabarem. Acho que devo ir quando me parece bem e de manhã, não me parece bem! E, tendo em conta aquilo que lá fazemos, nem à tarde me parece bem ir.
Passamos tempos infinitos em formatura, a olhar para o chão, enquanto passam aviões e os "doutores" se tentam fazer ouvir até onde estiverem caloiros. Para mim, é muito difícil conseguir tirar sentido ao que uma pessoa diz se: um, estiver muito barulho e, dois, não lhe conseguir ver a cara, mais precisamente os lábios. Depois, tudo aquilo me parece absurdo, uma tradição de humilhação, nivelamento por baixo, porque somos todos iguais, que é assim para integrar os novos alunos no espírito académico.
Fazemos isto por vocês. Sim, mandais-nos fazer não sei quantas flexões porque não fizemos a formatura em não sei quantos segundos, ou porque não gritamos Sim, senhor demasiado alto ou o raio que o parta. Ouvi esta do fazemos isto por vocês, hoje, depois de me terem dado um sermão sobre as regras da praxe, quando a minha justificação para ter faltado de manhã foi a de que estava a dormir.
Isso irritou-me profundamente! Irrita-me aquele tipo de poder que governa com o medo, talvez medo não seja a melhor palavra, mas que governa com uma certa opressão das pessoas, ou falando mais directamente, abomino as pessoas que me gritam na cara, que me dizem ai, toca-me na capa, toca-me vá, ai mãe, é que nem sabes o que te acontece!, que se sentem superiores e que por isso andam ali a gritar com as pessoas como se estas fossem animais. Mas onde é que está o respeito pela minha pessoa?
Isto é a integração?!
É que no dito tempo de praxe quase nem podemos falar com os nossos colegas e é suposto conhecermo-nos melhor ali? Já conheci mais gente nos intervalos das aulas do que no tempo da praxe...
Mas esperem, o que me irritou mais foi o moralismo com que vieram para cima de mim: os teus colegas também fazem sacrifícios para estar aqui, ou, o caloiro sabe a que horas me levanto para estar aqui?, enquanto muitos deles estão ali porque querem poder fazer aquilo a outros, querem usar traje e querem queimar fitas. Eu acho o traje absolutamente horroroso e, a par da queima das fitas, só serve para gastar dinheiro.
Este texto era suposto ser um texto de reflexão, para decidir se continuava ou não, contudo, ao longo da tarde fui pensando no assunto, falando com pessoas e decidi que não tenho paciência para brincadeiras destas.
Esta decisão levou-me a pensar naquilo que sou e eu não sou uma pessoa de multidões, nem de festas ou bebedeiras (alguns podem-me achar aborrecido, de facto, às vezes canso-me de mim mesmo, mas por outros motivos), no entanto, eu sou assim, prefiro uma boa conversa num café confortável, uma ida ao cinema, um jantar, a uma discoteca ou bar barulhentos. Sinto às vezes que as pessoas gozam comigo por dizer que não gosto de bebidas alcoólicas, quando me perguntam se gosto ou não, mas nunca senti a necessidade de beber para me divertir, muito menos senti a necessidade de beber só porque toda a gente o faz.
Dito, ou melhor, escrito tudo isto, declaro-me, assim, anti-praxe.

Depois de uma pesquisa na internet deparei-me com estes artigos de opinião:

E este manifesto:
P.S: Lembrei-me agora que uma "doutora" de praxe foi, de certa forma, repreendida por não querer entregar uma viola a um caloiro para ele a carregar, dizendo oh, coitados ao que a outra "doutora" respondeu coitados? pff! 

7 comentários:

Andros disse...

Estou um bocado ansioso por causa da Praxe para ver como é. Disseram-me que eles eram atenciosos na minha fac, mas sinceramente não acredito. Eu vou e depois logo vejo.

Kyle Phillipe disse...

estás a assustar-me!

Anónimo disse...

Parabéns Adam. Adorei o que escreveste. A praxe é simbolo de frustração na maior parte dos casos. Não é por se gritar que se tem razão. Só li o teu texto e está muito, mas muito bom. Um abraço.
Pi

AdamWilde disse...

@Kyle Phillipe não precisas de ficar assustado, mas que há cursos e universidades onde as praxes são mais "pesadas", lá isso há!

@Andros Eu fui para ver como era e agora que já vi, sei que não gosto.

Anónimo, obrigado, escrevi aquilo que acho e mesmo assim creio que ficaram coisas de fora, do que tinha para dizer. Mas é verdade, pode entrever-se um laivo de frustração em algumas pessoas, que vão para ali descarregá-la nos outros. Por acaso dou por mim a olhar para esses ditos doutores e achar que devem ter tido vidas muito complicadas e cheias de frustração!

Horatius disse...

Tudo depende das pessoas que fazem a praxe. Eu defendo que a praxe deve ser algo que seja divertido, que integre e que incuta no caloiro o sentido identitário do seu curso/escola. Ensinar as músicas/ hinos do curso/escola, muitas vezes coreografados, não me parece ter mal. Fazer competições (decentes e saudáveis) com os outros caloiros, também não me parece mal.

Agora, há muitos abusos. E muita intenção de "vingança" em relação aos caloiros pelos trajados. Ouvia colegas a dizer coisas do género "temos de nos vingar com A e B, porque também nos fizeram". A minha opinião é que se me fizeram e eu não gostei, não devo fazer aos meus caloiros. Só estarei a prepetuar algo que, a meu ver, é errado. Mas sei que penso de uma maneira que nem toda a gente a pensa... É pena, porque depois é daí que surgem os anti-praxes...

AdamWilde disse...

@Horatius, é verdade, tudo depende. No meu caso, simplesmente não quero cumprir as regras da praxe, mas sei que há muita gente que pensa dessa maneira, ou seja, na vingança e em fazer pior aos outros...

Pedro disse...

Gostei muito dessa reflexão, penso exatamente da mesma maneira! Acho que a praxe tinha um potencial muito melhor do que ser o que é... mas enfim, não o é.