3.8.13

O caderninho azul

Eu tenho um caderno azul de tamanho A5, que funciona como uma espécie de diário. Escrevo lá de tempos a tempos, às vezes com mais frequência, outras vezes com menos.
A primeira entrada remonta ao longínquo dia 26 de Junho de 2012, cuja ideia geral se resume deste modo: "Ir para fugir". Um ano e uns meses depois a situação é idêntica...
Continuei a minha viagem pelas restantes entradas: ideias, metáforas, divagações, sonhos... Até que cheguei à última entrada e à página em branco que se seguia.
Na última entrada, datada do dia 16 de Junho de 2013, registei o seguinte:
Ás vezes gostava que as pessoas percebessem aquilo que não digo. Porque o que não digo e guardo para mim, chega a ter mais importância que o que digo.
Não falo, aqui, de segredos, mas de coisas que prefiro calar por serem, à falta de melhor adjectivo, infantis.
Na página em branco que se seguia, motivado pela viagem feita a tudo o que tinha escrito para trás, escrevi o seguinte:
Por vezes, desce sobre mim o espírito das coisas passadas, aquilo a que chamamos nostalgia.
Dou por mim a chorar. Fico a brincar com a caneta nas mãos, enquanto me passam imagens diante dos olhos, que fitam o infinito e que se enchem de lágrimas. Passo um leve risco por cima do que tinha escrito e por baixo acrescento:
-Porque choras?
-Porque já fui feliz.
Já fui feliz e sempre que me lembro disso, lembro-me também de que nunca mais irei viver essa felicidade e que, provavelmente, nunca serei tão feliz como fui. Contudo, só hoje sei que fui feliz...
Não podes ter medo do que aí vem, dizem eles, mas falar é fácil e eu tenho medo e sinto-me sozinho. Sinto que um fosso está a crescer entre mim e praticamente todas as pessoas à minha volta. Talvez por culpa minha, talvez por culpa deles, mas sinto-me deslocado e afastado de toda a gente.
Ainda hoje, ao ler os tweets de alguns amigos, me dei conta do quão diferentes somos e do quanto os nossos interesses são diferentes. E o fosso cresce...
É de mim, que me fecho, que me isolo, que não ligo.
É deles, que não me compreendem, que só vêm o que mostro, que não vêm para além disso.
É de ambos, eles que são cegos, eu que sou estranho.
Sonho em não ser eu, frequentemente, porque me canso de mim, de pensar como penso, de ver o mundo como vejo, de sentir as coisas como sinto. Mas tenho de continuar a ser eu, para o bem e para o mal, até que a morte nos separe.

"Ah, poder ser tu, sendo eu! 
Ter a tua alegre inconsciência, 
E a consciência disso!(...)"
Fernando Pessoa

4 comentários:

Kyle Phillipe disse...

Sabes Adam, eu acompanho o teu blogue há algum tempo, mesmo antes de ter esta conta, com qual agora te comento, isto para te dizer que desde que te leio tenho notado digamos uma "evolução" da tua parte, e sinceramente essa evolução não me parece positiva, desculpa dizer-to mas acho que alguém tem que te ajudar e eu estou a tentar.
Digo-te que há uns tempos, talvez um ano, via-te mais feliz com posts divertidos e engraçados e digo-te que te vejo agora com posts mais aborrecidos, melancólicos e tristes. Acho que te queres obrigar a crescer e não o devias fazer, cada coisa tem seu tempo. Quanto aos amigos, como uma vez me disseram, "não estarás a pedir demasiado e a dar de menos?" se tu finges sorrisos, não podes estar à espera que adivinhem, isto não é um filme, é a vida e nem sempre se percebe quando as outras pessoas estão em baixo. Pergunto-me, como estão os teus amigos, de verdade? Sabes se eles estão bem? Pois... eles também podem aparentar felicidade e pensar da mesma forma que tu.
Outro dia uma amiga disse-me "gosto tanto do nosso grupo, porque somos diferentes e nos completamos" é verdade, temos os gostos diferentes mas estamos lá para divertir e para nos apoiarmos nos momentos mais complicados, esse é o valor da amizade.
Não entres nesse buraco fundo e frio do desepero, não leias autores tristes e aborrecidos, faz algo que te divirta, desprende-te do pc, convida os amigos para uma ida à praia, dá abraços, ri, salta, canta e chora, porque chorar também é importante.
Olha para ti, tu és tão forte, vais deixar-te abater por isto? Espero que não.
Melhores águas virão.
Um abraço,

AdamWilde disse...

@Kyle Phillipe, muito obrigado por este comentário!
Li-o antes de ir jantar e fui jantar a pensar nele. Acho que tens razão, talvez esteja a pedir mais do que aquilo que estou a dar, pelo que tenho que mudar essa situação. O meu problema é que encontrar os amigos, para além de depender deles, depende também da possibilidade que eu tenho de ir para a cidade, onde todos eles moram.
Acho que não cheguei a dizer, mas em Julho convidaram-me duas vezes para ir jantar fora, mas os meus pais não me podiam ir levar, nem havia mais ninguém que o fizesse, pelo que tive que ficar em casa...
E sim, talvez, sermos diferentes e termos interesses diferentes traga mais riqueza para o nosso círculo de amigos, mas a questão é: quando estão 3 amigos e dois partilham um interesse e só ficam a falar disso na presença do terceiro elemento que é um ignorante na matéria, é desagradável e isso já me aconteceu várias vezes.
Há um ano atrás tinha namorado, tinha na frente umas férias fantásticas para ir gozar e era uma pessoa diferente, hoje não tenho nada disso...
Enfim, eu não queria entrar nesse buraco, mas ás vezes parece que só estou bem a ouvir músicas calmas e melancólicas. Se for a analisar o conteúdo do meu mp3, as músicas pop, que tendem a ser animadas, sofreram uma redução, para dar lugar ao rock, que tende a ser mais triste, e ao jazz... Mais uma vez, obrigado pelo comentário, porque me fez pensar e querer tomar a iniciativa! =)

Kyle Phillipe disse...

Não tens que agradecer, pelo contrário, eu é que tenho, quando era mais novo o teu blogue ajudou-me a "crescer" e a ter menos medo de ser quem sou, isso ajudou-me bastante!
Eu também fico sem assunto com os meus amigos, mas achas que isso me importa? Há sempre qq coisa que todos gostem, nem que sejam piadas das mais secas possíveis.
Os meus amigos tb são de outra localidade, e isso nunca foi grande problema, porque combinávamos em sítios fáceis para todos, visto que somos um grupo ainda consideravelmente grande e com residentes em diferentes localidades. Agora que eu tenho carta, é-me também mais fácil.
Vá, não desistas de ti!
Abraço. :)

sad eyes disse...

É bom ter esses lugares de desabafo, seja aqui (nos blogues) ou num diário.
Todos o fazemos.
A vantagem de fazê-lo por aqui, é que tens alguém que reage e te pode ajudar a aclarar pensamentos.
Hugs