22.4.13

Colapso


Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos. Mia Couto.


Começámos de mansinho a não esquecer, a guardar para mais tarde as dores, a criar rancores; começámos a deitar tudo para dentro, enquanto o devíamos ter deitado para fora; começámos de mansinho a encher o copo, gota a gota, que grão a grão enche a galinha o papo, mas um dia a galinha fica cheia e o copo transborda e o mundo colapsa a partir de dentro.
Gritámos tudo o que tínhamos guardado para dentro durante muito tempo, incendiámos o mundo com os nossos clamores, destruímos tudo aquilo que tínhamos construído, tudo aquilo que se tinha construído… As florestas ardem, os edifícios caem, as pessoas correm desesperadas e gritam desalmadas, é o nosso mundo que vai acabar!
O meu mundo está a ruir, está-se a desmoronar à minha volta e eu não posso fazer nada. O meu, o teu, agora que já não há nosso, o de toda a gente. Entrámos numa espiral ascendente de egoísmo, mesquinhez e egocentrismo, acabou-se o dinheiro, a comida, a felicidade, acabou-se aquilo que nos unia, a faísca, a chama, que degenerou em cinzas e que agora voam, vão, se afastam, acabou-se o mundo como o conhecíamos, como o construímos, os dois.
O céu está carregado de plúmbeas nuvens, os incêndios proliferam e as ruínas invadiram a paisagem como se de um vírus contagioso se tratasse. Agora chove, como se o próprio mundo estivesse a chorar, lamentando-se pela destruição causada, saudoso dos tempos em que a paz era lei e a felicidade era abundante. Sou eu que choro.
Os gritos continuam, estamos visivelmente embriagados com o calor do momento, somos cruéis, queremos magoar-nos o mais possível, uma vez solto o monstro que existe dentro de nós, é muito difícil voltar a esconde-lo nas profundezas do nosso ser e por isso continuamos a destruir o mundo, continuamos a incendiá-lo.
O colapso teve epicentro em nós e separou-nos em dois. Eu, tu. Separados pelas barreiras que criámos à nossa volta, que nos tornaram insensíveis um ao outro, separados por uma vírgula, que a gramática também é impiedosa.
O colapso aconteceu, a tempestade veio, mas logo virá a bonança.

P.S: Não era assim que queria fazer o meu regresso ao blog, depois deste tempo todo de ausência, mas paciência, apeteceu-me. 

1 comentário:

Lobo Solitário disse...

Nunca devemos acumular sentimentos negativos em nós, eles acabam por nos contaminar.
DEITA CÁ PRA FORA!