28.4.13

Exercício Introspectivo

Isto de ter um blog lido por pessoas que me conhecem pessoalmente e que me vêem quase todos os dias, por pessoas que já conhecem a minha cara..., retira-me um bocado da liberdade de usar o blog como algo com uma função semelhante a um diário, na medida em que me é difícil escrever sobre o que vai dentro de mim, sabendo que alguém do outro lado, que me conhece, vai ler. Tento despir-me completamente enquanto escrevo, mas uma coisa é ficar nu estando sozinho e outra é ficar nu estando na presença de alguém que nos olha de frente.
Contudo, há coisas que precisam ser ditas, coisas que precisam ser questionadas, postas em causa, se não para obter respostas, pelo menos para se libertarem de mim, serem exteriorizadas, para diminuir o peso que pesa na alma. E, embora, o diga não dizendo, há vezes em que preciso de ser directo (brutalmente, sem me esconder em subterfúgios) e não posso, porque não me sinto bem com o meu corpo.
Tudo isto está relacionado com o que está a acontecer cá em casa, onde diálogos (é um óbvio eufemismo) que querem ser esclarecedores, se perdem no meio de diálogos cujo objectivo é tratar do acessório e não do problema em si, sim, porque existe aqui um problema enorme, mas os diálogos que pretendem ser esclarecedores degeneram naqueles que apenas tratam do acessório, acabando em lágrimas e palavras duras, irreflectidas, de cabeça quente, por ocasião do momento.
E depois, existo eu, neste diálogo silencioso, ou melhor, monólogo, ou nada disso, porque não falo, escrevo, que, não querendo dizer, já disse quase tudo, vejo-me a braços com várias crises, incluindo a minha. Todas elas são existenciais, creio eu, mas diferentemente motivadas; são coisas que escapam ao meu controlo.
Por um lado, temos, talvez, a crise económica a causar uma crise existencial, a impotência face a tudo o que está a acontecer em Portugal; por outro lado, temos, seguramente, a revolta pela sua condição, a perspectiva de uma vida condenada a ser sempre assim, ou a piorar, não há esperança de melhoria; por outro lado ainda, temos, evidentemente, a incerteza quanto ao futuro, o medo do que aí vem, o sentimento de abandono e incompreensão.
Ainda que não esteja a ser directo, isto está-me a fazer bem e depois há a hipótese, por preguiça ou vergonha, de guardar este exercício introspectivo e de não o publicar; ainda não me decidi.
Hoje, despi-me da cintura para cima, e, talvez, um pouco abaixo disso, um pouco de cada vez, para não provocar traumas.
(A porta fechada, o silêncio e o isolamento são o que sobra daqueles diálogos...)

24.4.13

Não é por nada, mas ainda ontem vos dizia para me oferecerem um telemóvel com Internet e hoje o software do meu bichinho foi à vida. Já não tem garantia, pelo que mais vale comprar um novo e se cada um der um bocadinho, torna-se menos pesado. Então vá, procurem-me um telemóvel com as seguintes características:

  1. Teclado físico qwerty (não quero cá touchices, telemóveis sem teclas, horror!)
  2. Wi-fi. 
  3. Internet. 
É pouco, certo? 
O meu problema é que não tenho dinheiro nenhum e as finanças cá em casa estão péssimas... Vou ali enfardar Nutella, para afogar as mágoas.

23.4.13

Vim aqui desabafar sobre o tempo, porque não me apetece estudar e falar do tempo é sempre um bom tópico para matar tempo

Estamos naquela altura do ano em que já se vêem pessoas de calções e manga-curta, mas ainda se encontram pessoas ajuízadas que ao primeiro raio de sol não despem metade da roupa, hoje sou uma dessas pessoas. Estava frio, por isso vesti o casaco que uso no Inverno e até trouxe cachecol! Agora, está calor e eu já despi o casaco... Ou sou eu que saio de casa muito cedo (8 da manhã), ou sou eu que tenho muito frio (humm, um pouco), ou é o raio do tempo que anda a gozar comigo. Tal é, que no fim-de-semana há previsões de chuva!

[E aqui ficava uma fotografia minha, todo encasacado, mas ainda não tenho um telemóvel ultramoderno que me deixe aceder à Internet, por isso... Ofereçam-mo.]

22.4.13

Colapso


Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos. Mia Couto.


Começámos de mansinho a não esquecer, a guardar para mais tarde as dores, a criar rancores; começámos a deitar tudo para dentro, enquanto o devíamos ter deitado para fora; começámos de mansinho a encher o copo, gota a gota, que grão a grão enche a galinha o papo, mas um dia a galinha fica cheia e o copo transborda e o mundo colapsa a partir de dentro.
Gritámos tudo o que tínhamos guardado para dentro durante muito tempo, incendiámos o mundo com os nossos clamores, destruímos tudo aquilo que tínhamos construído, tudo aquilo que se tinha construído… As florestas ardem, os edifícios caem, as pessoas correm desesperadas e gritam desalmadas, é o nosso mundo que vai acabar!
O meu mundo está a ruir, está-se a desmoronar à minha volta e eu não posso fazer nada. O meu, o teu, agora que já não há nosso, o de toda a gente. Entrámos numa espiral ascendente de egoísmo, mesquinhez e egocentrismo, acabou-se o dinheiro, a comida, a felicidade, acabou-se aquilo que nos unia, a faísca, a chama, que degenerou em cinzas e que agora voam, vão, se afastam, acabou-se o mundo como o conhecíamos, como o construímos, os dois.
O céu está carregado de plúmbeas nuvens, os incêndios proliferam e as ruínas invadiram a paisagem como se de um vírus contagioso se tratasse. Agora chove, como se o próprio mundo estivesse a chorar, lamentando-se pela destruição causada, saudoso dos tempos em que a paz era lei e a felicidade era abundante. Sou eu que choro.
Os gritos continuam, estamos visivelmente embriagados com o calor do momento, somos cruéis, queremos magoar-nos o mais possível, uma vez solto o monstro que existe dentro de nós, é muito difícil voltar a esconde-lo nas profundezas do nosso ser e por isso continuamos a destruir o mundo, continuamos a incendiá-lo.
O colapso teve epicentro em nós e separou-nos em dois. Eu, tu. Separados pelas barreiras que criámos à nossa volta, que nos tornaram insensíveis um ao outro, separados por uma vírgula, que a gramática também é impiedosa.
O colapso aconteceu, a tempestade veio, mas logo virá a bonança.

P.S: Não era assim que queria fazer o meu regresso ao blog, depois deste tempo todo de ausência, mas paciência, apeteceu-me.