20.2.13

Amour

A ideia que eu tenho do cinema francês (e dos filmes do Manoel de Oliveira) é a de que este é estático, silencioso, algo que assusta os filmes de Hollywood, que têm sempre alguma música de fundo. E o filme que eu fui ver ontem à noite, confirmou esse estatismo, esse silêncio, mas de uma forma positiva!
Amor, filme francês de Michael Haneke, com a participação de Rita Blanco, é um filme sobre o amor no fim da linha, o que equivale a dizer, um filme sobre o amor depois de uma vida, quase a chegar ao fim, em conjunto. 

Assistimos à decadência física e mental de Anne, enquanto o seu marido, fica ao seu lado, cuidando dela da melhor forma que sabe. As cenas são muito intensas e demonstram bem a fragilidade humana e a facilidade como cada um de nós - mesmo que não tenhamos oitenta anos, como os protagonistas - pode ficar dependente de outra pessoa. Não consigo imaginar o sentimento de revolta que isto deve causar, quando a pessoa está perfeitamente lúcida e quando toda a gente fica com pena. Anne não quer falar da sua condição e não quer que tenham pena dela, é um assunto tabu!
[SPOILER ALERT!]
A cena que me ficou gravada na memória, foi aquela em que Georges, o marido, teve de ajudar Anne a levantar-se da sanita, de lhe puxar as cuecas e de a ajudar a sentar-se de novo na cadeira de rodas. E aí lembrei-me dos meus pais, que já passaram por algo semelhante, exactamente os mesmos papéis, mas idades e razões diferentes. 

É o amor que faz Georges cuidar de Anne e, a meu ver, é esse mesmo amor que lhe faz dar uma chapada irreflectida, quando Anne, já acamada e fora do seu juízo, cospe a água que o marido a tinha obrigado a beber. Ele não queria que ela morresse de sede, não queria perder a sua companheira de uma vida, mas Anne já não era tal pessoa. 
Anne era uma criança adulta e acamada, depende a 100% do seu marido, que agora era um pai. É esse mesmo amor que Georges sente por Anne, que o leva, no fim de uma história que ele nunca lhe havia contado, sentado à beira da cama dela, a agarrar numa almofada e a acabar com um sofrimento mútuo; é o amor que faz com que Georges vista a sua amada e a coloque a repousar em cima da cama, rodeada de flores, como se fosse uma rainha e estivesse só a descansar; é o amor que faz com que Georges sonhe com Anne e que ambos saiam de casa, para ir... 
No meio de todo este drama está uma filha adulta que vive no estrangeiro e que só quer ajudar, mas não aguenta ver a mãe naquele estado lastimoso e decadente. 
O filme termina com essa mesma filha de regresso ao lar de sempre, agora vazio... 


O meu filme favorito para ganhar o Oscar de Melhor Filme, depois de já ter visto Argo, Os Miseráveis e Cloud Atlas, mas não acho que a Academia premeie dois filmes franceses consecutivos. Emmanuelle Riva, também é a minha actriz favorita a ganhar o Oscar para Melhor Atriz Principal, mas não estou convencido que mandem outro Oscar, outra vez, para França. 

5 comentários:

Algbiboy disse...

Gostei do espaço :)
Miguel

Namorado disse...

Parece-me um bom filme para ver.

Índio do Mar disse...

yeye ainda bem :D

um coelho disse...

Só uma correção, o filme, apesar de ser falado em francês, é austríaco. Mas tinhas razão, a academia não iria premiar dois filmes 'não americanos' de seguida.

AdamWilde disse...

@um coelho obrigado pela correcção, só reparei nisso, quando estavam a mostrar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.