5.12.12

[Sem Título]


Naquele momento é que eu percebi que nada é eterno, tudo tem um fim, mesmo quando se pensa que as coisas se podem prolongar infinitamente. A vida é uma ilusão, a Morte é uma certeza; a vida prende-nos, a Morte liberta-nos; a vida é complicada, a Morte é simples: para morrer basta estar vivo.
Foi melhor assim. Apesar de já não viver há muito tempo, tendo-se a sua situação agravado cada vez mais nas últimas duas semanas, a minha avó morreu ontem (escrevo isto na Terça-feira).
A Terra continuou a girar sobre si própria e em torno do Sol, as Leis da Física não foram desrespeitadas…, tudo contínua igual, no entanto, ela morreu!
Não consigo explicar o que senti, enquanto ouvia as dezenas de ave-marias que eram desfiadas numa cadência hipnotizante de vozes sem emoção e olhava para o local onde repousava o corpo onde ela outrora vivia. Não sei o que esperava… Talvez esperasse que ela se levantasse, ou que o alvo pano que lhe cobria a cara (e que eu não tive coragem de desviar para lhe ver o rosto…) começasse a ondular, sinal de que respirava, Mas não, nada disso aconteceu.
Por isso, fui forçado a concluir que a Morte era uma certeza inegável à qual ninguém podia escapar, não era algo como a suposta existência de Deus, o Salvador, que nos acolherá na Luz, não, a Morte existe, chega até a ser palpável. Comecei, também, a imaginar quem, da minha família, seria o próximo a estar ali deitado; agora que a Morte se tinha apresentado pessoalmente, ninguém estava a salvo!
Ainda me lembro de ter cerca de quatro anos e de não perceber porque tanto chorava aquela senhora pequenina e vestida de preto, perguntei à minha mãe e ela disse que um senhor se tinha ido embora. Mas embora para onde? Porque não voltava ele?
Agora percebo, muito melhor do que naquela altura.
Foi o primeiro funeral a que fui e o último até agora…
Não fui ao da minha avó. Não, porque não quisesse, mas porque a minha achou que não valia a pena perder um dia de aulas para lá ir e, além disso, ela já não vivia há muito tempo!

3 comentários:

Rapaz das marés disse...

a morte é de facto uma certeza, como tu dizes e bem "para morrer basta estar vivo."
Os meus sentimentos, pensa que agora aquela senhora que já não vivia, é uma estrela bem VIVA e BRILHANTE no céu, que olha por ti! :)

João Francisco disse...

Força nisso rapaz , muita força ! Estas cenas ensinamnos a aproveitar todos os momentos que estamos com as pessoas que nos rodeiam . Hoje é um familiar que estava a muito debilitado , amanhã é um vizinho que endoence e caminha para o mesmo fim , e depois é um amigo que a atravessar uma passadeira leva com um carro . Nao podemos prever quando acontecera e a quem acontecera e portanto ha que aproveitar o maximo de minutos com aqueles que nos fizeram e fazem felizes .

um coelho disse...

Não é fácil lidar com a morte de um familiar, sobretudo quando há esse sentimento de que a pessoa já partiu há muito tempo. Por estranho que pareça, uma parte da tua avó está em ti.