8.12.12

Diário de Inverno - Paul Auster

Já acabei de ler Diário de Inverno há algumas semanas, mas ainda não me tinha apetecido escrever sobre ele e o tempo nunca abunda.
Quero começar por dizer que este livro de Paul Auster não é para toda a gente, na medida em que, nem toda a gente gosta de ler as memórias de um escritor ou, muito menos, de ler sobre a sua iniciação sexual com uma prostituta, sobre quantas vezes se masturbava…
Este Diário é, talvez, uma conversa de si para si em frente ao espelho, é mais uma reflexão sobre a sua vida como se não fosse dele, como se o escritor não fosse ele próprio e estivesse a contar a história da vida de outra pessoa. Existe um distanciamento entre o escritor e a vida que é contada, provocado pela utilização da segunda pessoa do singular, tu. Ao mesmo tempo, faz com que o leitor se sinta mais próximo da história de outra pessoa.
Não existem capítulos, a unidade métrica é o parágrafo. Este funciona como uma separação entre os pequenos episódios contados, como se fossem, realmente, as entradas de um diário, desde o nascimento, até ao tempo presente. Pelo meio, Paul Auster, reflecte sobre a vida, a morte, de onde veio, para onde vai… Em certos momentos, já não é dele que fala, mas de toda a gente.

Eis algumas passagens, para abrir o apetite:

  • Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente. 
  • Sabem onde estão, onde estiveram e para onde vão, mas tu não sabes nada, perdes-te para sempre no momento, engolido pelo vazio de cada momento sucessivo, sem a mínima ideia de onde fica o verdadeiro norte, porque para ti os quatros pontos cardeais não existem, nunca existiram. 
  • Gostavas de saber quem és. Com pouco ou nada que te oriente, partes do princípio de que és o produto de vastas migrações pré-históricas, de conquistas, violações e sequestros, de que os longos e labirínticos cruzamentos da tua horda ancestral se estenderam por muitos territórios e reinos, porque tu não és a única pessoa que tem viajado, afinal de contas há tribos de seres humanos que se movimentam por toda a Terra há dezenas de milhares de anos, e quem sabe quem gerou quem gerou quem gerou quem gerou quem até chegar aos teus pais, que te geraram em 1947? 
  • Como não sabes de todo de onde vens, decidiste há muito presumir que és composto de todas as raças do Hemisfério Oriental, parte africano, parte árabe, parte chinês, parte indiano, parte caucasiano, o cadinho de numerosas civilizações que se guerreiam num único corpo. Tanto quanto qualquer outra coisa, é uma posição moral, uma forma de eliminar a questão da raça, a teu ver uma falsa questão, uma questão que só pode trazer desonra a quem a formula, e por isso decidiste conscientemente ser toda a gente, albergar toda a gente dentro de ti para seres mais plena e livremente tu, já que quem és é um mistério e não tens esperança de algum dia o ver resolvido. 
  • Não te vês. Sabes que aspecto tens graças aos espelhos e às fotos, mas lá fora, no mundo, quando te movimentas entre os outros seres humanos, sejam eles amigos, desconhecidos ou entes mais queridos, a tua cara é-te invisível. Vês outras partes de tu, os braços e as pernas, as mãos e os pés, os ombros e o tronco, mas só a parte da frente, da parte de trás nada, nada a não ser as costas das pernas, se as rodares convenientemente, mas não a cara, a cara nunca, e afinal de contas - pelo menos para os outros - a tua cara é quem tu és, o essencial da tua identidade.

2 comentários:

Herr Limes disse...

Paul Auster e agora Milan Kundera? Tu tens é o gosto apurado [risos]! Pretendo ler Auster nas férias.

AdamWilde disse...

@Herr Limes, Auster é fantástico! E Milan Kundera foi uma sugestão do prof de Psicologia... :p
Anyway, não perdemos nada em ler um bom livro!