17.11.12

A vida é uma coisa feia.


A vida é uma coisa feia.
Ela jazia na cama, estendida, tal como tinha sido lá posta, não se havia mexido um centímetro que fosse; no nariz tinha uma sonda, que se destinava a tirar-lhe a expectoração. O seu estado era deplorável!
Haviam já decorrido cinco anos em que ela só existia, de vez em quando, mas muito de vez em quando, vivia um pouco, mas no resto do tempo limitava-se a existir. Existia, porque o coração ainda batia, ainda bate, a questão é por quanto tempo mais continuará ele a bater, por quanto tempo mais continuará ela a existir?
No princípio do mês, mal nos reconheceu, só rezava, recitava baixinho as suas orações, sempre, repetidamente, sem parar, quase como uma obsessão, como se fosse aquela a única coisa que soubesse fazer, a única coisa que estivesse destinada a fazer! Hoje já não falou, hoje já nem rezou… Limitava-se a estar ali estendida na cama, a existir ali.
Eu sei que queria falar, mas não conseguia.
A vida é uma coisa feia, por muitos bons momentos que vivamos, nada conseguirá apagar a única certeza da vida: ela tem um fim. E a morte com a sua imprevisibilidade consegue tirar toda a beleza da vida. Talvez não seja tanto assim, mas eu sou assim, eu vivo assim, à espera do fim!
Provavelmente, a imprevisibilidade da morte serve para nos lembrar que todos os momentos são sagrados, mas nem por isso nós somos melhores pessoas e, creio que, nem disso nos lembramos.
Eu lembro. Lembro de tal forma que fico angustiado por saber que nunca irei realizar todos os meus sonhos, todos os meus projectos… Há sempre tanto por fazer e sempre tão pouco tempo!
Mas eu falava de uma senhora que já não vivia, que já não vive há cerca cinco anos, que só tem estado a existir… É a minha avó e hoje fui visitá-la, ao olhá-la não parava de pensar se seria este o tempo em que ela se elevaria aos Céus.

(Uma coisa eu sei, nunca quererei existir, matem-me, não me deixem existir! O meu maior medo é ser prisioneiro de mim mesmo, prisioneiro do meu corpo e do meu cérebro, matem-me, não me deixem existir nunca!)

3 comentários:

Rapaz das marés disse...

que belo texto!

e que aconteça à tua avó, aquilo que for melhor para ela! :)

Herr Limes disse...

A vida é angustiante, de fato. É insistir para existir.

iLoveMyShoes disse...

Percebo a tua angústia em relação à tua avó... a minha tem Alzheimer há mais de 10 anos... Não a vejo há oito... é demasiado doloroso... fiz o luto pela minha avó... sei que no dia em que ela deixar de ter uma existência física isso não me vai afectar. Para mim, ela já partiu...

Mas contrariamente a ti não tenho medo do "fim". Nunca tive, é uma inevitabilidade e como tal, não há que temê-la... :)