13.10.12

Sabedoria camoniana

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Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assim como no pobre, 
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

A Polídoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva de ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.

Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes os tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude.


Luís Vaz de Camões em Os Lusíadas

1 comentário:

Lobo Solitário disse...

Só um ou dois versos é que me são familiares.
O que eu adoro n'Os Lusíadas é mesmo o misticismo e a mitologia que estão sempre presentes no seu canto.