7.10.12

Antes e depois (de ele ter partido)


A cidade rejubilava de alegria, sob o generoso sol de Outubro, assim que íamos avançando cidade dentro. A manhã estava fresca, agradável, ele estava comigo e fomos dar um passeio: conhecer a cidade por dentro, a pé.
A alegria das festividades contagiou o nosso espírito e também nós rejubilávamos de alegria, não sei se apenas pelo ambiente ou se, simplesmente, porque estávamos os dois finalmente juntos, a cerca de cinco centímetros de distância um do outro…
Certo era que tínhamos o tempo contado: às dez horas e doze minutos da manhã, ele tinha um autocarro para apanhar que o levaria de volta à sua casa. Desde que o vira pela primeira vez, quando chegou, eu sabia que ele teria, eventualmente, que regressar, mas, como que, reprimi essa informação e entrei num estado de embriaguez culminando no contágio pela alegria das festividades da cidade.
Desta feita, às dez horas em ponto lá estávamos os dois na Rodoviária; a cidade continuava mergulhada na sua alegria, mas eu começava a “recuperar” do contágio…
Esperámos.
Felizmente o autocarro não chegou á hora marcada, mas sim dez minutos depois e só partiu passados mais cinco minutos, o que nos deu mais alguns momentos para nos olharmos ao espelho da alma e fazer sentir, sem palavras, tudo aquilo que éramos um para o outro.
Mas, como nada dura para sempre - nem o que é bom, nem o que é mau -, como tudo tem, impreterivelmente, que ter um final, para o equilíbrio cósmico ser mantido, o autocarro dele chegou!...
Despedimo-nos com um abraço. Ele entrou para o veículo e sentou-se. Fiquei a observá-lo, sem sair do sítio, queria-lhe dizer tudo, mas acabei por lhe dizer nada e o autocarro começou a sua marcha: primeiro lentamente, até que, depois da sua curva, acelerou e o perdi de vista.
O gigante de quatro rodas havia partido e tinha-me deixado ali especado, sentindo-me mais pequeno que o mais pequeno dos homens.
Fui embora.
De repente, a cidade tinha perdido o seu encanto, a sua alegria, a sua cor; parecia-me mais cinzenta e sisuda, desprovida de qualquer interesse capaz de me tirar daquele estado de ressaca que experimentava pela primeira vez…
Talvez a cidade nunca tenha estado em festa; talvez tenha sido eu (ou ele) que tenha dado à cidade um novo ar. Talvez a cidade nunca tenha perdido a cor; talvez tenha sido eu que decidi que ali já não havia nada que me prendesse. Talvez a culpa seja inteiramente minha e este relato não seja de todo fidedigno, porque a minha forma de olhar o mundo se alterou.

3 comentários:

sad eyes disse...

As histórias que as estações de autocarro teriam p contar :p
abc

um coelho disse...

Este texto está tipo... espetacular! Não desfazendo nos outros, mas este é dos melhores textos que já escreveste por aqui.

João disse...

Bunny, é o Amor a falar! E tiraste-me as palavras da ponta dos dedos! :D