8.9.12

Os Bichos.


Não gostas, porque sabes o que lá se passa…
Não gostas, porque sabes que vais encontrar a decadência da vida humana; sabes que vais encontrar pessoas que já desceram tão baixo, que talvez já nem se possam chamar de pessoas. Essas pessoas já desceram tão baixo: estão a definhar à frente de todos e o tempo, o pior inimigo da espécie humana à excepção, talvez, dela própria, avança inexoravelmente e leva com ele, pedaço a pedaço, a essência de cada um, até que não reste nada mais do que uma carapaça flácida e cheia de rugas.
O tempo passa, arrasta memórias dos tempos em que o Tempo não importava porque era abundante, preenchido por alegrias e por gentes de quem se gostava; são essas memórias que mais sofrimento causam… É que já não podem voltar!

“Eu queria voltar à minha casa… Mas já não me lembro do caminho! Acho que tinha que se ir por ali, mas não tenho a certeza… E depois se me perco? Eu também já nem consigo andar muito bem…”
A senhora lamentava-se na varanda da frente daquela casa grande e magnífica, enquanto olhava para o jardim florido.
“E pensar que houve tempos em que conseguia fazer as minhas coisas, sozinha, sem a ajuda de ninguém… E pensar que existiam muitas pessoas que gostavam de mim, que gostavam dos meus lanches (e do meu dinheiro) e nos divertíamos muito… E agora, olhem para mim, estou acabada!”
As lágrimas começavam a escorrer-lhe pela cara e ela soluçava, mas continuou.
“Não tenho ninguém que me venha visitar! Largaram-me aqui e já não querem saber de mim… Estou acabada!”

Agora, o tempo é inimigo: está em contagem decrescente…
Não gostas, porque, indirectamente, consegues ver a podridão da espécie mais evoluída do mundo, que abandona os mais velhos à morte, como se não passassem de um qualquer animal irracional, que se manda para abate em fim de vida, para não sofrer mais.
No entanto, não deixo de pensar que talvez esse fim fosse preferível a todo este sofrimento… Morrer antes de definhar.
Morrer antes de se perder a essência da pessoa que se é.
Morrer enquanto ainda é tempo de se ter uma morte – não digo digna, porque de digno a morte não tem nada – de verdade!
É que enquanto as pessoas definham, vão morrendo… A cada dia estão mais mortas e vão morrendo mais e mais, até que no Fim, não sobra mais do que a carapaça tão marcada pelo tempo.
Não sei porque se tem tanto medo da morte… É a única coisa que temos garantida, logo ao sair do útero! A vida e a morte complementam-se, são amantes e se estimamos a vida, devíamos estimar a morte ainda mais, por ser ela que nos ensina o valor da vida e a urgência do Tempo.

Não gostas… Porque és jovem e te vês confrontado com o teu futuro mais longínquo, se é que algum dia lá chegarás.

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