11.4.10

Suícidio

Aqui estou eu, no telhado deste velho prédio. Aqui estou eu, mesmo à beira do abismo, mesmo à beira da minha felicidade.
Lá em baixo, a cidade move-se num rodopio stressante, igual e pálido. As pessoas andam de um lado para o outro, como se fossem formigas a recolher comida para o Inverno, e ninguém parece importar-se… Sou apenas mais um moribundo que vagueia, perdido, nesta cidade, e ninguém parece importar-se!
Posso dizer que tenho uma Vida boa, com dinheiro e amigos. Nunca me falta nada e, quando me falta, o dinheiro pode pagar.
Mas, apesar de tudo isso, estou aqui! Porquê?
Aqui estou eu, no telhado deste velho prédio, mesmo à beira do abismo, mesmo à beira da felicidade.
É isso que me falta! Falta-me a felicidade que o dinheiro não pode comprar, aquela felicidade que é partilhada com alguém, aquela felicidade duradoura, aquela felicidade genuína. Faltam-me os sentimentos mais puros e nobres.
Eu, no telhado deste velho prédio à beira do abismo, sou mais moribundo do que os moribundos a quem todos os dias viramos a cara. Eles podem ser pobres de posses, mas são ricos de sentimentos.
E eu continuo aqui, à beira da felicidade! Porque não vou ter com ela, de uma vez por todas? Porque não acabo com esta angústia?
Ainda tenho coisas que me prendem aqui. Posso ser moribundo, mas ainda tenho uma réstia de razão para viver…, mas isso não chega!
O relógio avança sem compaixão, o tempo não pára, nem espera por ninguém! Quanto mais o tempo passa, mais a minha angústia aumenta… Chegou a hora!
Dou um passo em frente, dou um passo em direcção à minha felicidade.
Sinto-me flutuar, sinto uma liberdade imensa. Finalmente sou feliz, finalmente estou feliz! Chego ao fim da viagem, estatelo-me no chão. O meu corpo fica desfeito, mas eu estou livre!
Parto, para o abismo, mas tenho a felicidade comigo!

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